Entrevistas 3 anos atrás | Redação

Dama das artes: Fernanda Feitosa é a criadora da SP-Arte e SP-Arte/Foto

A 10ª edição da SP-Arte/Foto acontece de 24 a 28 de agosto, no Shopping JK Iguatemi

por Revista FHOX
fernanda-feitosa-5Marcelo Célio

 

Matéria originalmente publicada na edição 177 da revista FHOX

Formada em direito pela Universidade de São Paulo, Fernanda Feitosa exerceu a profissão até 2001, quando optou por um período sabático e foi morar no exterior, com a família. Na volta, em 2004, juntou seu interesse em arte com o desejo de atuar na área. Fez um plano de negócio e o pôs em prática, lançando em 2005 a SP-Arte, que naquela ocasião tinha apenas 40 galerias, sendo uma delas estrangeira ocupando o primeiro andar do icônico prédio da Bienal. Dez anos depois, o evento que se tornou o maior do Hemisfério Sul, contou com mais de 140 galerias e uma visitação de mais de 23 mil pessoas.

Dois anos depois de criar a SP-Arte, Fernanda lançou a SP-Arte/Foto que rapidamente se consolidou no calendário como o mais importante encontro da fotografia autoral no País, congregando as principais galerias e autores, além de trabalhar ativamente na formação de novos colecionadores. Duas semanas antes da abertura da nona edição do evento, FHOX esteve com Fernanda em seu escritório para uma agradável conversa sobre sua trajetória e o cenário do mercado da fotografia autoral.

fernanda-feitosa-2Marcelo Célio

FHOX – Conte o surgimento de suas feiras.
Fernanda – Eu frequentava algumas como colecionadora. Aqui no Brasil tinha a Feira Hebraica na época. Então, vim com uma ideia de criar um evento que juntasse de forma mais harmônica e melhor tanto as galerias de arte contemporânea quanto as de arte moderna. Aí surgiu o conceito. Aluguei a Bienal e montei a primeira SP-Arte. Começamos com poucas, 40, sendo uma estrangeira. Ocupava o primeiro andar da Bienal, um prédio simbólico, que foi a Casa das Bienais. E tinha perspectiva de crescimento em seus 30 mil metros quadrados. Começamos com cinco mil. Dez anos depois ocupamos tudo. Assim surgiu a SP-Arte e aos poucos foi caminhando. De 40, hoje em dia temos 89. E de uma estrangeira, hoje temos 57. Um estrondo.

FHOX – Que relação vê entre a SP-Arte e a SP-Arte/Foto?
Fernanda – Dois anos depois de fazer a SP-Arte, identificamos uma tendência, alguns agentes do mercado se voltando para a fotografia na época. Percebi que dava para isolar a fotografia, criar um evento só para ela. E o shopping [JK Iguatemi] surgiu como um parceiro natural. A fotografia, como está próxima de um público mais neófito, tem uma identificação quase natural das pessoas, como algo que praticam eventualmente. A ideia era um local mais intimista, que trouxesse a comunidade de fotógrafos. Do segundo ano em diante, contamos com palestras ou aulas sobre fotografia brasileira. Sempre pensamos num modelo de negócio um pouco menor e gratuito, para se diferenciar da SP-Arte, e com capacidade de gerar um público grande.

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FHOX – Nesses anos a própria fotografia mudou muito e as pessoas estão mais envolvidas com o assunto…
Fernanda – Muito mais curiosas, não é? Começamos com um público visitante de três, quatro mil pessoas, e hoje temos 12 mil. Mas é um público que – claro, o shopping facilita e atrai –, gostamos dessa coisa de curioso, “ué, mas que coisa diferente é essa? Eu não conhecia…”, então é uma pessoa que também não vai à SP-Arte, e que se depara com a fotografia dentro do shopping. E cultura não está mais dissociada do lazer. A procura por um passeio cultural com a família entrou no cotidiano das pessoas. Todo mundo gosta de fotografar, então há certa curiosidade do fazer fotográfico. Tem muito fotógrafo que vai à feira, está lá mostrando o seu trabalho, conversando.

As galerias foram e têm sido as responsáveis por essa projeção da arte brasileira no exterior, na falta de uma política cultural coesa no Brasil

FHOX – Você tem algum estudo sobre a eventual conversão do visitante do shopping ao colecionismo, ou a ocorrência de compra por impulso?
Fernanda – Fizemos uma vez na SP-Arte um estudo de taxa de conversão que era de 4%, se não me engano. Esse estudo é de seis anos atrás.

FHOX – Quem está no shopping é potencial comprador e colecionador, mesmo que seja pelo caminho da decoração, que às vezes é visto com certo desdém pelo mundo da arte?
Fernanda – Ao longo dos anos me dedico a transformar pessoas em colecionadores. Para isso, você tem que ser o menos preconceituoso possível. Se a pessoa foi à feira procurando para combinar com um sofá, seja uma obra de arte, uma fotografia, gravura, pintura, pelo amor de Deus, você tem que agradecer que ela está pensando em uma fotografia, porque ela poderia somente pintar de verde a parede e enfeitar a casa. Ela compra e está ajudando a movimentar o mercado. Acredito no poder da arte, no longo prazo a pessoa olhar para aquilo que ela comprou, eventualmente decorativo, e falar assim: “Sabe de uma coisa? Esse negócio não fala mais comigo”, e aí trocar, comprar outra obra. Temos que dar um pouco mais de liberdade. A base da pirâmide é muito grande, e é claro que à medida que você vai se tornando um colecionador, essa pirâmide vai afunilando.

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FHOX – Sente ter colaborado para aumentar o número de colecionadores de fotografia?
Fernanda – O fato de ter uma feira obviamente traduz isso, sempre haverá pessoas que gostam de fotografia. E aumentou um pouco, assim como o número de pessoas que gostam de gravura. Naturalmente também o colecionador vai escolhendo o que quer. Tem pessoas que vão colecionar só fotografia.

FHOX – Como funciona a seleção de galerias que participam das feiras?
Fernanda – O processo é comum a muitas feiras que pretendem ter um conjunto de pessoas de qualidade. Primeiro começa com qualidade, sem dúvida. Depois, diversidade de materiais, contemporaneidade. Estou aberta a pensar em galerias que trabalham só com fotografia de celular, por exemplo. A tendência é um comportamento. Estamos tentando ser uma feira nacional, buscando regionalidade, ter um pouco dessa representatividade, desses artistas de longe.

FHOX – A SP-Arte está consolidada no calendário internacional. Você busca para a SP-Foto esse lugar no futuro?
Fernanda – Sem dúvida. As pessoas sabem que tem fotógrafos muito importantes no Brasil. No ano retrasado trouxemos a curadora da Tate [Modern, galeria]. Este ano estamos trazendo a curadora do MoMA. Para falar a verdade, a SP-Foto acaba sendo um momento da singularidade brasileira. Ao não ser um evento completamente internacional, concentro um pouquinho a atenção dessas pessoas.

FHOX – Valor médio de fotografia como arte subiu lá fora. Aqui também?
Fernanda – Também. Esses trabalhos mais caros tendem a aparecer mais na SP-Arte. Na SP-Foto, a faixa média é de 15 mil a 25 mil reais.

FHOX – Acredita que a fotografia brasileira ainda precise se projetar mais internacionalmente?
Fernanda – Pergunta difícil. Acho que tudo precisa se projetar internacionalmente. Tanto a arte brasileira, quanto a fotografia brasileira – não sei por que a gente divide –, tem que se projetar mais no exterior e mais no Brasil. A SP-Arte e a SP-Foto trabalham em cima de três pilares. Dinamização do mercado. Criar uma plataforma de mercado para esses vários artistas, escultores, fotógrafos, multimídias, performers, happeners. Ajudar a fomentar o escoamento da produção dessas pessoas, o que significa encontrar um comprador, pessoa física ou instituição. Hoje em dia temos muita pessoa física e menos compras institucionais porque há poucos recursos nos museus. No exterior, isso é dividido. Então, dinamizar plataforma de negócio, educação e divulgação. E a educação e divulgação no Brasil passam por criar um público consumidor. Somos um país com mais de 200 milhões de pessoas, evidentemente temos de ter mais colecionadores. A fotografia é um nicho. Talvez não se fale de cem fotógrafos brasileiros conhecidos lá fora, mas já conhecem Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Mario Cravo Neto.

fernanda-feitosa-1Marcelo Célio

FHOX – É um trabalho de semear?
Fernanda – Sim. Quando trago a curadora do MoMA [Sarah Meister] que dá uma entrevista contando o que ela tem em Nova York, ela cita: “Tenho Regina Silveira, Geraldo de Barros, o Gaspar [Gasparian], Thomas Farkas, Claudia Andujar e a última aquisição foi o Alair [Gomes]”. É muito legal ouvir isso. A Tate veio aqui – não vou falar o que ela está procurando – e está comprando trabalhos. Isso é fruto de trabalho, não é de um ano para outro. Talvez o que pudesse ajudar são mais participantes brasileiros indo ao Paris Photo, que é um grande encontro. Tivemos o Iatã [Cannabrava] no ano passado, com fotolivro, o IMS [Instituto Moreira Salles] também. Mas, como é um nicho, temos menos galerias focadas em fotografia, que se propõem a fazer isso. A Lume está fazendo, fez o Paris Photo de Los Angeles. Se as galerias de fotografia começarem a se lançar e participar desses grandes eventos… Ontem a Abact [Associação Brasileira de Arte Contemporânea] lançou uma pesquisa sobre isso, você viu?

FHOX – Sobre as vendas vindas de eventos?
Fernanda – Sim. 30% das receitas das galerias vêm de participação em feiras nacionais e 10% em feiras internacionais.

FHOX – Qual o perfil do público comprador da SP-Foto?
Fernanda – É um público jovem, assim como o da SP-Arte. É claro que a SP-Arte por ter artistas modernos, o espaço secundário, tem um pouquinho mais do avô e do pai. Tem os filhos também. Então, tem três gerações dentro da SP-Arte, mas cada vez mais gente jovem, atraída pela arte contemporânea. A SP-Foto talvez tenha menos a primeira geração, mas tem o pai e o filho. Mas muita gente jovem também.

FHOX – Artistas usando novas mídias têm sido premiados e ganham destaque, como você vê isso? Isso pode mudar a feira?
Fernanda – Talvez os expositores, nem todos eles ousam nessa comunicação. Tendem a fazer isso mais na SP-Arte. Na fotografia, eles ficam no suporte clássico, que é a impressa. Até estimulamos, porque a feira de fotografia pode, ela tem um caminho que é multimídia. Vídeo, por exemplo, é algo bastante pertinente. Já tivemos. Eder Santos já expôs, a própria Rochelle teve alguns trabalhos de projeção na feira.

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FHOX – Na sua visão, as galerias brasileiras estão fazendo um trabalho bacana?
Fernanda – A SP-Arte não chegaria aonde chegou sem o trabalho muito profissional das galerias. Inclusive em 2004, parti do pressuposto que em São Paulo poderia ter uma feira de arte de sucesso porque estava calcada em algumas premissas importantes. Primeiro, uma abundância de obras de arte, a alta qualidade de produção local artística poderia sustentar e manter a feira. Ainda que eu quisesse falar ‘internacional’ – falei ‘internacional’ desde o início –, mas ainda que eu levasse alguns anos para trazer, realmente, muitos participantes estrangeiros, ela poderia se bastar localmente. A segunda coisa, uma rede de galerias profissionais. Apesar de o Brasil não ser há dez anos um mercado que estava tão exposto internacionalmente, tínhamos um conjunto de galerias muito avançadas na profissionalização. Algumas, na época, seis ou sete, faziam feiras internacionais. As galerias foram e têm sido as responsáveis por essa projeção da arte brasileira no exterior, na falta de uma política cultural coesa no Brasil.