Negócios 1 mês atrás | Fabio Rebouças

Aonde estão os fotógrafos de casamento

O mercado de fotografia de casamento não é mais o mesmo. Uma abordagem lúcida e completa do fotógrafo Fábio Rebouças em colaboração para o site da FHOX

por Revista FHOX
Wikimedia Commons

Partindo da lógica de que um dos mais importantes preceitos da pesquisa científica é a observação de determinados fenômenos, através de agentes observadores, poderíamos então assumir esse papel e levantarmos uma importante reflexão sobre um fato um tanto quanto real e plausível de não só continuar acontecendo, mas também de continuar gerando consequências problemáticas para um determinado grupo social.

Estamos falando do esfriamento e porque não, do desaparecimento de grandes nomes da fotografia de casamento no brasil.

Há pouco menos de 10 anos, vivíamos o que poderíamos classificar como o período do Apogeu Cultural da Fotografia de Casamento, fotógrafos até então desconhecidos, de repente, do dia para noite, tomavam conta dos palcos de grandes eventos destinados a outros fotógrafos também do mesmo ramo. As palavras de ordem seguiam no mesmo sentido; tocar corações, contar histórias reais, exemplos de superação, etc. Palavras baseadas em um único contexto: “VOCÊ TAMBÉM PODE SER UM DE NÓS”.

Chorar durante uma palestra assim, era a coisa mais comum e sensata que podia acontecer, pois o intuito era exatamente esse, aquecer e tocar os corações ansiosos por uma nova experiência.

Durante alguns anos, mais e mais nomes ascenderam ao Hall da fama entre os fotógrafos de casamento, tornando-os não só grandes referências aos jovens entusiastas, mas até mesmo numa espécie de mestres/gurus para alguns, inclusive no estereótipo. Parecia que todos faziam parte de uma mesma “tribo”. Um Coque samurai ou barbas longas, camisas xadrez e alças de couro, o “Neo Hipster da Fotografia”. Quando não, até as mesmas gírias, sotaques e jargões. De certa forma até bacana, se este tipo de padrão repetido não trouxesse consequências mais sérias.

Mike Baird – CC

Acontece que a maquiagem da realidade ficou evidentemente isolada somente aos palcos e redes sociais, afinal, quer lugar melhor para exercitar sua “persona”. Porém, o que viria depois era natural e esperado, até porque nenhum ser humano fica imune, intocável. Mais dia, menos dia, acabamos sendo vítimas de nossas próprias ações, afinal, é comum hoje misturarmos realidade e ficção.

Enquanto o mundo midiático seguia em um paralelo ao mundo real, fotógrafos se viam entusiasmados com seus novos clientes, misturando muitas vezes amizade com prestação de serviço, alguns chegavam a dizer que nenhum dinheiro poderia pagar a satisfação de estarem realizando os sonhos de seus não mais clientes, mas sim, seus grandes e íntimos amigos. Afinal, que mal tem isso?

Os anos se passaram e os primeiros problemas começaram a ocorrer nos processos de finalização e entrega de serviços, pois o entusiamo da execução do trabalho, movido ao sentimentalismo pregado nos palcos e redes sociais, levaram os jovens profissionais a não se atentarem para uma realidade tão dura e cruel; o preço cobrado pelo trabalho em relação a cobrança exercida sobre ele, sem contar as horas, dias e meses de edição.

A realidade veio à tona, pois economicamente, social e culturalmente, o mundo seguia muito longe do que víamos nos palcos.

Triste, pois muitos destes grandes nomes, também foram vítimas de suas próprias ações, as vezes um tanto quanto egocêntricas, ou as vezes apenas por acreditarem demais no que pregavam, mas não podemos também deixar de salientar que houveram abusos e incompetência de ambos os lados. Com toda certeza teríamos capacidade de elencar todo tipo de abuso ou cobrança excessiva por parte de clientes, ou até mesmo falta de preparo do profissional.

De repente começamos a ver tantos contratos ajuizados, tantas ações indenizatórias, reparações de danos, profissionais em depressão e até tentativas de suicídio, afinal, aqueles se diziam ser amigos íntimos, hoje estão em embates judiciais.

A tão dita autorregulação do mercado de fato aconteceu, mas não foi para o lado da emoção, a balança pendeu para o lado da razão e toda retórica sofista caiu por terra. Sonhos que se foram pelo ralo.

Oliver Dixon – CC

Hoje, o que vemos não é nada mais que o esfriamento e também o desaparecimento de grandes nomes da fotografia. Claro que muitos se cansaram, outros se deram conta de que a realidade do mercado é outra, existem aqueles cuja a frustração foi tão grande, que chegaram ao ponto de precisarem ser amparados emocionalmente. Porém ainda existem os que se aproveitaram de toda essa situação, são aqueles que por qualquer um desses motivos, não tiveram a capacidade, muito menos a humildade de reconhecer suas falhas e estão até hoje nos palcos e mídias sociais, pregando teorias e métodos genéricos, se utilizando de uma mesma retórica sentimental e se aproveitando das dores de muitos novos entusiastas da fotografia que ainda não passaram por estes processos.

Nós, enquanto observadores desses fenômenos sociais e até por, em alguns casos, termos sido até personagens de vários casos, precisamos pressionar os formadores de opinião, frente aos riscos que corre o nosso mercado, podendo chegar até o ponto de desabar.

Outros nomes estão chegando e nota-se que boa parte ainda não está dotada de conhecimento técnico, muito menos de experiências para determinarem regras ao nosso mercado. É preciso agir e reagir contra todo tipo de demagogia, é preciso acabar com o cinismo dos palcos e bastidores de eventos de fotografia, é preciso recuperar a integridade da prestação de serviço fotográfico, é preciso força, para que juntos, possamos nos levantar.

Afinal, quem serão os próximos grandes nomes, será que estamos fadados a repetir os mesmos erros de ontem?

Fábio Rebouças começou na fotografia em 1998 como laboratorista fotográfico. Desde 2000 atua como fotógrafo com passagens pelo fotojornalismo e depois na fotografia social. Em 2019, ele iniciou pesquisa científica na área de ciências sociais sobre o impacto do marketing no mercado e na sociedade. Recentemente publicou artigo científico sobre a problemática Coach no mercado da fotografia, pela faculdade de direito do sistema Anhanguera de ensino na cidade de Piracibaca (SP).